A literatura periférica é reconhecida como arte?

No último dia 30 de março a UFRGD divulgou a lista de leituras obrigatórias para o seu vestibular de 2018 e, entre as novidades, está o livro da escritora Carolina Maria de Jesus. A inclusão do livro entre a lista que chega a milhares de jovens reacende algumas polêmicas que envolvem a obra da escritora. Considerada uma das primeiras e mais importantes autoras negras do Brasil por alguns, Carolina tem seus escritos contestados por parte de acadêmicos, que consideram que seu livro, Quarto de despejo – Diário de uma favelada, não poderia ser considerado literatura. 

A literatura periférica é reconhecida como arte?
Carolina Maria de Jesus no dia de lançamento de seu livro

Ao lado de Machado de Assis, Clarice Lispector, José Saramago, Camões e alguns outros pesos-pesados das letras lusófonas, Carolina Maria de Jesus (1914-1977) integra a lista de leituras exigida pelo Vestibular 2019 da Unicamp. O livro relata o dia a dia de uma mulher negra e favelada, que vivia a recolher e vender papéis recicláveis. 

De um lado, os que contestam alegam que a escrita criada para a obra seria absolutamente confessional, relatando o dia a dia de uma mulher que vivia na favela, como em um diário. Do outro lado, há os que defendem que o tom mais intimista e realista da narrativa não invalida suas características literárias. As desconfianças mostram apenas o distanciamento daqueles que não conseguem acreditar que uma mulher como Carolina Maria de Jesus seria capaz de escrever uma obra, ainda que fora dos padrões, com tamanha força poética cotidiana. 

A literatura periférica é reconhecida como arte?
A autora juntava livros, cadernos e revistas entre os lixões da cidade

“Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.” Essa é uma das poderosas frases cheias de metáforas encontradas nos diários da autora, que nasceu em 14 de março de 1914 e trabalhou como catadora de lixo. Moradora da favela do Canindé, zona norte de São Paulo, a escritora registrava o cotidiano duro de quem vivia na região. Apesar de ser pouco reconhecida no Brasil, Carolina foi traduzida para 13 idiomas e vendida em mais de 40 países.

Polêmicas

Para acender ainda mais o embate, na última segunda-feira (17) um professor branco afirmou, durante uma homenagem à escritora, que sua obra não seria considerada literatura. A homenagem se transformou em embate e discussões acaloradas, com novos destaques para o ponto de vista de que a obra seria sim uma grande criação literária, independente de quem goste ou não. 

A literatura periférica é reconhecida como arte?
Carolina ao lado da escritora Clarice Lispector

Sua escrita é pessoal e não segue os padrões gramáticos que costumam ser aceitos pela academia. No entanto, sua obra leva aos leitores uma realidade quase nunca registrada entre as páginas literárias, possibilitando que se abram novas reflexões a respeito das desigualdades sociais que nos cercam. Com poucos anos de estudo, Carolina se empenhava em ler restos de livros e cadernos que achava no lixão e o encontro com sua obra pode levantar a questão: qual a importância da literatura no cotidiano das populações mais pobres?

Foi entre os livros que a escritora que vivia nas favelas se emponderou e encontrou forças para mostrar ao mundo seu quarto de despejo cotidiano. Ela vivia as questões da pobreza e da moradia precária em sua própria pele, podendo escrever sobre os assuntos com mais propriedade e veracidade que grandes estudiosos. Quando li Quarto de despejo pude me sentir transportada para a dura realidade das favelas, tão distante da criação literária brasileira mais usual. As páginas nos seguram ao mostrar a realidade de tantas mulheres negras periféricas. O que se destaca em seu livro é a importância do testemunho escrito como meio de denúncia de desigualdade social e do preconceito racial.

Esquecimento

A literatura periférica é reconhecida como arte?
Em frente à favela de Canindé, São Paulo, onde morava

A escritora caiu no ostracismo com o passar dos anos, mas é inegável que sua obra é um importante referencial para os estudos de literatura e cultura brasileira, representando a força de nossa criação periférica e marginal. A inclusão de seu livro entre as leituras de grandes Universidades é de suma  importância, já que esses espaços costumam fomentar e disseminar as tendências literárias de cada tempo. Um livro que relata, para dentro das Universidades, o cotidiano de uma favelada, abre possibilidades para maior identificação entre os alunos de suas próprias salas de aula. 

A partir dessa perspectiva, alunos que não se incluem entre a maioria branca de estudantes, além daqueles que chegam de classes mais baixas, poderão também ver parte de suas histórias retratadas. A literatura negra e periférica ganha, desta maneira, também seu espaço na academia. 

1
Comments
Your comment...
Loading